DO LIMITE DA FICÇÃO REALISTA À DIMENSÃO DO IMAGINÁRIO PURO

A integração da imagem realista do corpo humano numa composição estruturada com formas e colorismo sem qualquer referência ao real conhecido, longe de ser paradoxo temático, ambigüidade conceitual, simboliza reflexão questionadora sobre a representatividade na pintura. Esta simbolização sugere redefinição do conceito de pictórico pela transmutação do descritivismo objetivo em imagem de estrita e exclusiva plasticidade própria da pintura pura. Este posicionamento analítico, crítico, com relação ao sentido ou cerne da criação artística, é constante na produção de Sebastião Rodrigues. Nas exposições anteriores, quando apresentou a maturada morfologia semântica da sua arte, Sebastião já contrastava a expressividade da anatomia humana com a visualidade de intensos e vigorosos gestualismo configurando movimento, dinamismo, mutação. Desde então, suas composições vêm expressando, simultaneamente, uma espécie de desestruturador contraponto de imagens remanescentes e uma reconstrutiva dialética das massas, formas, volumes e cores recriadas.

Nesta mostra dos seus recentes trabalhos, o artista sobrepõe a um residual figurativismo o seu imaginário abstratizante como extrapolação do limite ficcional do realismo e inserção na plena dimensão conceitual, simbológica.

João Carlos Cavalcante
Crítico de Arte // Setembro de 1992

A característica fundamental da pintura de Sebastião Rodrigues é a intensa liberdade de concepção da imagem e da expressão técnico-formal da mesma. Esta liberdade é evidente tanto na integração do delineamento figurativista da anatomia humana com visionarismo abstracionista de tensão e movimento no interior da imagem, quanto no modelado da forma e volume das figuras de pessoas que aparentam ora dissolver-se em fragmentos de cor e luz, ora germinadas de uma dinâmica fusão de manchas e grafismos. Nas composições de Sebastião, um gestualismo nitidamente emotivo, sensorialista, exprimindo intuição da função da forma não estática, coexiste com uma intencional racionalidade na concepção da totalidade da representação. As suas imagens impregnadas de uma espécie de permanente, inesgotável energia, configuram a organicidade da emoção, do sentimento e da imaginação com a expressão como metáfora da realidade vital do ser humano.

João Carlos Cavalcante
Crítico de Arte